Dualidade

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Escrito em 2020.

Sinopse

Gabriel é um fotógrafo que retornou ao Brasil depois de três anos no estrangeiro. Seu projeto atual é fotografar a cena drag queen paulistana. Dos encontros do cotidiano surge um questionamento que mudará sua percepção do mundo e de si mesmo.


“Como é teu nome mesmo?”

“Gabriel”, ele respondeu, de costas, enquanto escolhia um tipo de filme para a câmera. “O seu é Paulo, né?”

“É.”

Gabriel se virou na direção dele, “Eu vou usar filme preto e branco, e colorido, também. Os dois têm que ser 135.”

“Qual ISO?”

“400 para o preto e branco e 1600 para o colorido.”

Paulo indicou onde ficavam os filmes que Gabriel precisava, e o seguiu.

“Posso perguntar sobre o projeto?”, Paulo indagou, pegando um filme de uma prateleira que Gabriel não alcançava. “De quantos rolos você precisa?”

“Uns cinco de cada por segurança”, ele respondeu. “O projeto é um livro de fotos da cena drag queen paulistana.”

“Interessante.” Paulo lhe entregou cinco rolos de um dos filmes. “E por que você está usando analógico?”

“Não gosto de digital.” Gabriel pegou os objetos das mãos dele. “Sei lá, acho que estraga a magia.”

Eles andaram em direção ao caixa. “Você sempre usa analógico?”, Paulo perguntou.

Gabriel coçou a barba. “Uso”, e sacou a carteira do bolso. “Mas faz algum tempo que não venho aqui. Morei nos EUA nos últimos três anos.”

O outro colocava os filmes num saco de papel. “Ah, meu irmão passou a loja pra mim depois que casou”, e entregou a Gabriel depois que ele pagou. “Faz uns dois anos.”

“Nem sei se ele se lembra de mim, mas dê lembranças”, Gabriel disse antes de sair. “Gabriel Platt, meu nome.”

Paulo sorriu. “Pode deixar. Volte sempre.”

E Gabriel saiu da loja para uma São Paulo mais fria que o comum para o mês de março.


Gabriel apertou a alça da mochila nos ombros enquanto via Larissa acender um cigarro.

“Você não tinha parado de fumar?”, ele perguntou.

Ela fez uma careta. “É complicado”, e baforou a fumaça. “Onde você tá ficando?”

“Na casa de um amigo…”, ela não ia gostar do resto da resposta. “Que é também um ex…”

Larissa olhou para ele com certa incredulidade. “Quem?”

“Aquele músico que eu namorei entre 2017 e 2018.”

“Júlio?”

“Juliano.”

Gabriel esperou que ela fizesse algum comentário sobre Juliano ter sido “o pior namorado” que ele teve, mas ela ficou em silêncio por um tempo.

“Se eu ainda morasse aqui, você poderia ficar lá em casa”, foi o que ela disse então.

Gabriel tirou uma mecha de cabelo do rosto. “Nah. Sua esposa não gosta de mim.”

Larissa riu, zombeteira. “Você é meu irmão, ela tem que gostar de você.”

“Acho que ela gostava mais de mim quando eu era mulher”, ele comentou, olhando a rua adiante.

“Nah, você tá projetando”, e bateu o cigarro.

Eles andaram mais alguns metros em silêncio.

“O que é feminilidade pra você?”, Gabriel perguntou, de repente.

Larissa demorou para responder. “Nunca pensei sobre isso. Acho que as coisas ficam cinza quando se é lésbica.”

“Por quê?”

“Não sei explicar.” Pausou, acendendo outro cigarro. “Tipo, eu conheço muitas lésbicas que são masculinas, e mesmo as que são mais femininas não são exatamente o estereótipo. Quando você pergunta pra mim o que é feminilidade, eu penso nisso: estereótipos. Talvez seja mais simples pra uma mulher hétero identificar o que é feminino, porque ela não vai se rebelar constantemente contra isso, imagino.” Tragou o cigarro. “O que me leva a pensar em papéis de gênero. Tem essa expectativa para a mulher ser servil, dona de casa, mãe, enfim; e isso também é um estereótipo pra mim, porque é uma visão errônea do que uma mulher é ou deve ser.”

“Mas não existem estereótipos que são verdadeiros?”

Larissa riu. “Não. É a própria definição de estereótipo, Ga. Em outras épocas, mulheres não tinham escolha de se rebelar contra os papéis de gênero e feminilidade e afins. Hoje nós temos, até certo ponto, acho. Não acho que esses conceitos de feminilidade e masculinidade sejam úteis agora.”

Gabriel considerou a resposta dela. “Mas se não é feminilidade que te faz uma mulher, o que é então?”

Ela jogou o cigarro no chão e pisou em cima. “O que te faz um homem?”

“Eu sempre tive essa impressão, sabe? De que sou um homem. Antes da transição, sempre que eu sonhava, eu era um homem. Eu achava muito estranho olhar pro meu corpo quando acordava e ver seios e curvas.”

“Então é uma impressão que te faz homem?”

“É uma certeza. É certeza de que eu não poderia viver de outro jeito.”

“Eu também tenho essa certeza em relação a mim, de que estou feliz porque me veem como uma mulher, porque sou uma.”

Chegaram à estação de metrô. Gabriel abraçou a irmã.

“Então você vai escrever a introdução do livro pra mim?”, ele perguntou.

“Vou.” Ela o abraçou outra vez e beijou sua bochecha. “Eu te ligo quando chegar.”

Ele concordou e acenou enquanto ela passava pela catraca.


Alguém bateu à porta do estúdio. Gabriel se afastou da pia, agitando o tanque de revelação em mãos, e destrancou a porta para abri-la. Era Juliano.

“Você não foi pra casa ontem”, ele disse quando entrou. Trazia uma embalagem de padaria nas mãos. “Fiquei preocupado, mas lembrei que você faz isso às vezes.”

Gabriel indicou a mesa para ele colocar a embalagem. “É, eu perdi a noção do tempo”, respondeu.

“Você comeu?”

Ele olhou para o relógio. Eram quase seis da tarde e ele não se lembrava de ter comido nada desde as nove da noite anterior. Não respondeu à pergunta.

“Eu trouxe uns pães de queijo veganos pra você”, Juliano disse, indicando a comida sobre a mesa.

Gabriel continuou a agitar o tanque por mais alguns segundos. Deixou-o sob a torneira aberta em seguida, colocou um alarme no celular para dali a meia hora e foi até a mesa. Pegou um dos pães de queijo e comeu em silêncio.

“Como anda o projeto?”, Juliano perguntou, os braços apoiados sobre a mesa e o corpo curvado para frente.

“Eu vou em outro bar hoje”, Gabriel respondeu, pegando um segundo pão de queijo da mesa. “Pretendo ir em um por semana, e tirar os outros retratos durante o resto dos dias.”

“Já falou com muita gente?”

“Algumas pessoas.” Ele mordeu. “Umas seis ou sete, acho. Eu estava mais preocupado com a introdução do livro, mas arranjei minha irmã pra escrever.”

Juliano beliscou um dos pães.

“Eu posso ir com você?”, ele perguntou. “No bar.”

Gabriel ficou em silêncio por algum tempo. “Não sei se é muito sua praia.”

O outro franziu o cenho. “Por que não seria?”

“Você não tem cara de quem gosta de shows de drag.”

Juliano riu. “Bem, eu nunca fui em um pra saber se gosto.”

Gabriel terminou de comer. “Então vai”, respondeu. “Só não reclama se eu te esquecer por algumas horas.”

Ele riu outra vez. “Tudo bem.”


Gabriel deixou Juliano perto do balcão do bar para tirar fotos da apresentação que ocorria no palco. Tinha visitado os artistas no camarim e marcado entrevistas com aqueles que não conhecia ainda, além de ter tirado alguns retratos depois da maquiagem. Ele não conseguia prestar muita atenção no que acontecia no palco; preocupava-se mais em procurar bons ângulos para as fotografias. A música ecoava em seus ouvidos junto das conversas ao redor, e passar pela multidão era incômodo de vez em quando.

Ele andou até o bar quando terminou, desviando das pessoas no caminho. Juliano terminava de aplaudir a apresentação, e Gabriel pegou o copo que estava diante dele no balcão. Bebeu um gole e fez uma careta.

“Cadê o álcool disso aqui?”, ele perguntou.

Juliano puxou o copo para si. “Alcoólatra, lembra?”

“E você pode ficar aqui?”

“Não me incomoda”, ele respondeu. “Você terminou por hoje?”

“Acho que sim.” Ele pegou a mochila da mão de Juliano e colocou a câmera lá dentro. “Mas eu vou ficar mais um pouco. Pode ir embora, se quiser.”

Juliano abriu a boca para responder, mas foi interrompido por outra pessoa que se aproximou. O glitter rosa na barba foi a primeira coisa que Gabriel notou, e então a peruca vermelho berrante que falhava em ocultar os fios escuros do cabelo cacheado. Talvez tenha sido pela ondulação dos cachos ou pela voz que Gabriel reconheceu quando a pessoa chamou seu nome.

“Paulo?”, ele perguntou.

“Eu mesmo.” Ele tirou a peruca. “Achei que não fosse me reconhecer.”

Gabriel sorriu. “É, eu quase não reconheci mesmo.”

Paulo perguntou se podia acompanhá-lo e Gabriel aceitou, apresentando-o a Juliano. Eles conversaram por algum tempo, e Paulo ficou surpreso quando percebeu que falava com um músico famoso.

Eles se sentaram longe do bar pouco tempo depois, e continuaram a conversa, então saíram do estabelecimento e foram a uma boate próxima. Apenas Gabriel e Paulo bebiam, e Juliano recusava o álcool, embora ainda dançasse com eles. Em algum momento, Paulo colocou um selo na língua e ofereceu aos outros dois. Gabriel olhou para Juliano, que riu.

“Você não precisa da minha permissão, ué”, ele disse.

Gabriel e Juliano aceitaram os selos. As luzes ficaram mais brilhantes pouco depois, e a música os levava para uma dimensão diferente. Gabriel beijou Paulo quando se sentiu ser puxado para mais perto durante a dança e, nos próximos segundos, Juliano se uniu a eles. Foi um beijo com suor e sabor de álcool.

Quando Gabriel se deu conta, eles estavam no apartamento de Juliano, em uma bagunça de pernas, braços e beijos.


Era uma tarde de quinta-feira. Gabriel, deitado no sofá, puxou a manta para cobrir seu corpo e aceitou o baseado quando Juliano o passou. Tragou e exalou a fumaça, encarando as marcas deixadas pelo cinto de couro que usaram para amarrar seus pulsos durante o sexo.

“Você parou de usar a palavra ‘puta’”, Gabriel disse então. “Durante as cenas.”

“É”, Juliano respondeu. “A misoginia nunca me agradou.”

“Nem quando a pessoa pede?”, ele tragou outra vez e devolveu o baseado para Juliano.

“Nah”, suspirou. “Eu sei que faz parte da humilhação e que tem gente que gosta, mas me incomoda.”

“Eu não gosto também, mas é por uma razão diferente, acho. Me deixa desconfortável porque eu lembro que ainda tem um pouco de mulher no meu corpo.”

“Eu lembro que você ficou muito pistola naquela vez que eu perguntei se eu podia foder sua boceta.”

Gabriel fez uma careta. “É. Eu não gosto de ser lembrado disso.”

Eles fumaram em silêncio por algum tempo. Juliano colocou os restos do baseado no cinzeiro no chão ao lado dele, e se ergueu para se sentar no sofá, colocando as pernas de Gabriel sobre suas coxas.

“Você acha que eu tenho alguma coisa de feminino?”, Gabriel perguntou.

Juliano pareceu pensar. “Eu não te vejo como uma mulher, ou como parcialmente mulher, se é o que você tá pensando.” Lambeu os lábios. “Tipo, eu não sei bem o que considerar feminino. Muita gente me acha bem macho, mesmo eu pintando as unhas, me depilando e às vezes usando delineador, que são coisas femininas, talvez?”

“Eu acho que naquela vez que você perguntou de me foder pela frente, eu não te disse a razão de eu não gostar.”

“Não, você tentou jogar alguma coisa em mim em vez de falar.”

“Ah é, eu joguei uma lata de cerveja vazia em você.” Gabriel riu. “Mas eu não gosto porque eu tenho essa impressão de que você, e qualquer outro homem, na verdade, vai pensar isso: que está fodendo uma boceta, e que bocetas são coisas de mulher. Eu sei que eu tenho uma, mas eu não gosto de pensar isso. Mesmo antes da cirurgia eu chamava meu clitóris de pau, por exemplo, e odiava ser associado a qualquer coisa feminina. Ainda odeio.”

“Por quê?”

Gabriel ficou em silêncio por algum tempo.

“Porque eu queria ser um homem, porque eu queria que as pessoas me vissem como um homem.” Pausou. “É difícil ser um homem trans e gay, especialmente um que gosta de dar, porque as pessoas sempre dizem ‘Ah, então você é só uma mulher hétero?’. E, não, porra, eu sou homem. Mas eu não sei o que fazer para convencer as pessoas de que eu sou homem, sabe? Eu sinto que eu preciso ser um estereótipo de masculinidade para ser aceito.”

“Eu poderia perguntar por que é que você acha que precisa ser aceito, mas deve ser algo parecido com o complexo que eu tenho com o meu corpo.”

Gabriel ergueu as sobrancelhas. “Você? Complexado?”

Juliano riu. “Eu era gordo quando era adolescente, e eu tinha esse desejo mórbido de me encaixar, ao mesmo tempo que queria me afastar da norma. Depois que eu comecei a banda, eu criei essa imagem de homem musculoso que odeia sentimentos e se dá melhor sozinho. Eu parei de usar maquiagem e pintar as unhas, passava mais tempo em academia do que no estúdio, coisas assim. Não sei se isso ajudou alguém a me aceitar, mas não me ajudou a me aceitar.”

“Você acha que eu não me aceito?”, o outro perguntou.

Ele coçou a barba. “Não sei. Me dá essa impressão, agora que eu tenho mais noção disso. Antes de fazer terapia, eu nem questionaria o que você disse.”

O silêncio se ergueu entre eles outra vez. Juliano olhou no relógio que estava na parede e se levantou, pegando as roupas do chão. “Eu preciso ir buscar meus filhos na escola. Você vai pra casa que horas?”

“Eu vou jantar com o Paulo, então umas dez e meia, onze horas.”

Juliano se despediu com um aceno e saiu do estúdio. Gabriel ainda pensava nas palavras dele quando a porta se fechou.


“O Juliano é seu namorado?”, a voz de Paulo indagou.

Gabriel ergueu os olhos na direção dele e riu, afastando o prato. “Você me pergunta isso no quinto encontro?”

Paulo deu os ombros. “Não pensei nisso antes.”

“Não, ele não é meu namorado. Já foi, não é mais.”

“Então você mora com seu ex-namorado?”

Ele riu outra vez. “É temporário. Eu vou me mudar para o Rio quando terminar o projeto.”

Paulo baixou o olhar por um instante. “Que pena”, ele disse.

“Por quê?”

“Talvez eu tenha me apegado.”

“Bem, eu não vou ficar lá o tempo inteiro. Também tenho amigos aqui. E tem você.”

Os dedos de Paulo se moveram sobre a mesa, mas ele não disse nada.

Eles pagaram a conta e saíram do restaurante pouco depois. Andaram algumas quadras e foram até o apartamento de Paulo.

“Uísque ou vinho?”, Paulo perguntou, uma garrafa em cada mão, quando Gabriel se sentou no sofá.

“Vinho.”

Paulo colocou a outra garrafa sobre o balcão que dividia a sala da cozinha e pegou duas taças no rack encostado à parede. Serviu, entregou uma a Gabriel e se sentou no outro sofá.

Paulo bebeu um pouco do vinho. “Falta muito para você terminar o projeto?”

Gabriel descansou a taça. “Só faltam algumas entrevistas.” Bebeu. “Na terça eu vou falar com o Thiago.” Terminou o vinho e colocou a taça sobre a mesa de centro. Eles ficaram em silêncio por algum tempo.

“Você está bem?”, a voz de Paulo perguntou então, parecendo notar que o silêncio do outro não era habitual.

Gabriel tentou sorrir. “Mais ou menos”, disse. “Conversei com o Juliano sobre umas coisas alguns dias atrás e isso ainda tá na minha cabeça.”

Paulo se levantou do sofá e se sentou ao lado de Gabriel. “Você quer falar disso?”

Ele passou as mãos pelo rosto. “Juliano insinuou que eu tenho problemas de autoaceitação.”

“Em relação a quê?”

“Ao meu gênero, a eu ser trans.” Pausou. “Eu disse pra ele que sinto que preciso ser esse estereótipo de masculinidade para ser aceito.”

Paulo ficou em silêncio.

“Você concorda?”, Gabriel perguntou.

“Não sei bem. Eu percebi que tem certa resistência em você quanto a coisas femininas. Mesmo tendo esse projeto sobre drags, você é meio travado nesse aspecto. Eu lembro quando o Pedro perguntou se você queria que ele te maquiasse, só faltou você sair correndo.”

Gabriel suspirou.

“Mas você não é obrigado a isso”, Paulo continuou, “a ter um lado feminino, digo. Especialmente se te deixa desconfortável.”

“O problema é que eu tenho”, ele respondeu. “Eu gosto de algumas coisas mais delicadas, por exemplo. Não gosto de ser brutamontes nem coisas assim. Mas eu sempre penso que vão me considerar menos homem por isso.”

“As pessoas ou você?”

Ele engoliu a saliva. “Eu, talvez.”

“Eu sou mais relaxado quanto a isso”, Paulo continuou a falar. “Sei que gosto de homens desde os… sete, oito anos, acho. E gostava de bonecas e coisas do tipo. Não sou exatamente homem, nem mulher. Sou algo no meio termo. E eu acho que tudo é fluído, especialmente gênero.” Colocou mais vinho em sua taça. “Mas para mim deve ser mais fácil. Eu nunca me conformei aos papéis de gênero, mas nunca tive que provar meu gênero para os outros.”

“Eu vou pensar mais sobre isso”, Gabriel disse então. “Mas não agora. Eu quero me distrair.”

Paulo sorriu e puxou o outro para um beijo. “Eu te ajudo.”


Thiago era um homem de uns quarenta e cinco anos, e tinha a cabeça raspada. Trabalhava numa sorveteria com seu marido, e foi um dos artistas que Gabriel selecionou para entrevistar.

“Quando pessoas mais jovens vêm me perguntar sobre drag, elas geralmente têm opiniões bem diferentes da sua”, foi o que ele disse durante a conversa. “Algumas já vieram me dizer que é algum tipo de apropriação da identidade feminina, coisas assim.”

“Você pode me explicar isso melhor?”, Gabriel perguntou.

“É porque alguns homens acham que ser drag é só uma fantasia. Atuação mesmo. Mas não é assim pra muita gente: eu tenho amigas que se descobriram mulheres por serem drags, por exemplo. Pra mim, é como se fosse uma identidade à parte, sabe? Não é exatamente um personagem, é uma parte de mim, uma parte de mim que é mulher. Eu enxergo mais como uma celebração da identidade feminina, entende? Não afirmação de estereótipo.”

“O que você acha dos conceitos de masculinidade e feminilidade?”

Thiago passou a mão no queixo, pensando. “Acho que todo mundo tem um pouco dessa dualidade, em algum nível. Os estereótipos em que esses conceitos se apoiam servem mais como um guia, acho, uma demarcação do que é o quê. Não existe ninguém que seja estereótipos à risca, talvez só na ficção. Ao mesmo tempo, não sei também se é possível sair completamente desses dois conceitos. Algumas culturas têm um terceiro gênero, mas eles também são baseados em feminilidade e masculinidade.”

Gabriel bebeu do copo de água que estava ao lado. “Você tem mais alguma coisa que queira falar a respeito?”

“Vou pensar, mas acho que não”, Thiago respondeu. “Mas gostei muito do seu projeto, espero que ele tenha sucesso.”

O outro agradeceu e eles conversaram mais um pouco sobre outros assuntos.


Juliano estava deitado na cama, nu, um videogame em mãos, quando Gabriel bateu à porta aberta do quarto.

“Entra”, ele disse, pausando o jogo. Pegou o cigarro aceso do cinzeiro ao lado e tragou.

Gabriel não se sentou. Ele abriu os lábios para falar, mas sua garganta estava desconfortável. “Eu…”, começou. “Eu queria falar sobre aquela nossa conversa.”

O outro tragou o cigarro outra vez. “Diga.”

“Acho que você tinha razão. Eu não aceito algumas partes de mim.” Pausou, suspirando. “Eu sei que eu sou homem desde os doze anos de idade, mas não podia fazer transição naquela época. Quando tinha uns quatorze, eu andava com uns meninos na escola. Pra mim eles eram meus amigos, mas eu sei que eles não me viam desse jeito. Eles me provocavam, falavam coisas sexuais pra mim. Recentemente eu percebi que o desconforto que eu sentia naquela época não era só porque eu queria ser visto como homem, mas também porque o que eles me diziam me colocava num lugar ruim. Me fazia ter consciência do meu corpo, de como ele era visto por homens. Quando você me perguntou se podia me foder pela frente, eu fui levado àquele lugar de novo.”

“Desculpa ter te deixado desconfortável”, Juliano disse, amassando o cigarro no cinzeiro.

Gabriel fez um não com a cabeça. “Nah, isso faz tempo.” Coçou a barba. “Mas meu desconforto não é só pela parte física, sabe? Ter uma vagina e útero, eu quero dizer.

É também em relação a algumas coisas que eu gosto que são consideradas femininas. Eu sou travado em relação a elas, porque isso sempre vai me levar ao lugar de ser visto como uma mulher, de ser um corpo objetificado. Eu sei que as pessoas com quem eu ando hoje não me veriam como uma mulher, mas ainda é um fantasma. Não sei. Eu tentei deixar o Paulo me comer pela frente hoje, mas não consegui. Eu travei. Sei que não sou obrigado a nada disso, mas eu quero. Eu quero ter um bom relacionamento com o meu corpo e com as coisas que eu gosto.”

“Talvez você precise de terapia”, Juliano comentou, e riu quando Gabriel fez uma careta.

“É, talvez.” Bocejou. “Eu vou dormir.” Ia se virar na direção da porta, mas continuou a falar: “Ah: é muito estranho te ver pedindo desculpas.”

“Eu tô diferente desde o nosso namoro.”

“É. Acho que hoje você não seria um namorado tão merda quanto foi naquela época.”

Juliano sorriu. “Você quer tentar ser meu namorado de novo?”

“Deus me livre”, Gabriel riu e saiu do quarto.


“Então, quem é o seu boy novo?”, Larissa perguntou, levando o copo com suco de laranja aos lábios.

Gabriel fez uma careta. “Ele tem quarenta anos, não dá pra chamá-lo de boy.”

“Mas vocês namoram?”

“Não sei. A gente não decidiu. Vai ficar difícil quando eu me mudar…”

“Você pode ir morar com ele.”

“São lésbicas que se mudam para a casa da namorada no terceiro encontro, não gays.”

Larissa riu. “Você está de delineador hoje”, comentou.

“Fiz a barba também”, Gabriel disse, passando a mão pelo queixo nu de pelos. “Eu tô tentando sair um pouco das noções tradicionais de masculinidade.”

“Está funcionando?”

Ele deu os ombros. “Acho que sim. Ainda não consigo fazer sexo pela frente, mas não é isso que importa.”

Larissa bebeu mais do suco e mordeu um pedaço da torrada. “Eu não imaginava que esse projeto de fotos te faria questionar isso.”

“Eu também não.” Ele bebeu o leite. “É estranho, mas foi bom.”

Ela sorriu e eles ficaram em silêncio enquanto comiam.

“Eu te enviei a introdução do livro por e-mail”, Larissa disse.

“Achei que ia entregar pessoalmente.” Gabriel se levantava. “Para alguém que mora no Rio, você passa muito tempo em São Paulo.”

“É que eu preciso ficar de olho no meu irmão mais novo.”

Ele apertou os olhos na direção dela. “Dois minutos mais novo, Lari.”

Larissa passou um dos braços pelos ombros dele e eles andaram até o caixa. Pagaram a conta e saíram da lanchonete. Era uma manhã quente para agosto, e Gabriel apreciava a temperatura.