Girassóis

Classificação indicativa: 14+
Escrito em 2019.

Sinopse

Amélia e Virgínia namoraram por algum tempo e hoje são amigas. Amélia não se conforma com o final do relacionamento; Virgínia acha que elas são melhores separadas.


A pintura era girassóis num vaso. Três dentro de um vaso, dois fora, sobre a mesa, e o fundo atrás deles era um azul intenso. Alguma coisa dentro de Virgínia dizia que ela já tinha visto essa imagem antes, mas ela não lembrava onde.

“É de van Gogh”, Amélia disse, ao seu lado, “Foi destruída num incêndio na Segunda Guerra.”

Era uma reprodução – todas as pinturas naquela sala eram reproduções. Aquela era bem fiel, mas talvez fosse porque Virgínia gostava de girassóis. As cores da tela eram cativantes.

Pelo canto dos olhos, Virgínia viu Amélia colocar a mão no bolso do macacão. Era onde guardava o maço de cigarros. Estava inquieta, isso era evidente pelos seus movimentos contínuos, mas não pegou o maço. Quis perguntar a razão de ela estar agitada, mas não conseguiu. Falar era difícil naquele momento. Falar com Amélia era difícil depois do término.

Fizeram um círculo pela sala para ver todas as pinturas. Sempre que paravam diante de uma, Amélia ficava revezando o peso do corpo sobre as pernas, e olhava para todos os lugares que não o quadro. Cinco quadros depois, Virgínia começou a se incomodar.

“Você quer ir embora?”, ela perguntou. Sua voz saiu ríspida, mesmo que tivesse tentado esconder a irritação.

Amélia estreitou as sobrancelhas. Abriu os lábios e seu queixo estremeceu por alguns instantes, mas não disse nada. Mesmo conhecendo-a bem, Virgínia não sabia o que todas suas expressões faciais significavam, e aquela lhe parecia nova.

Com o interesse na exposição abalado, ela foi em direção à saída, seguida por Amélia. Lá fora, algumas pessoas estavam na calçada conversando. Amélia imediatamente acendeu um cigarro.

A cor do céu naquele momento lhe lembrava o fundo da pintura de van Gogh.

“Por que você me trouxe aqui?”, Virgínia perguntou depois de alguns minutos. Amélia tinha se encostado à parede da galeria, e fumava seu segundo cigarro.

A outra deu os ombros. “Fazia tempo que a gente não se via.”

“Mas por que essa exposição?”

Amélia baforou a fumaça. “Era a única que parecia ser do seu gosto.”

Virgínia suspirou fundo. Amélia quase nunca se preocupava com os seus gostos. Pediu um cigarro, e fumou junto dela. O silêncio que se instalou entre as duas era quebrado pelos carros passando na avenida e pelo ocasional riso vindo do grupo próximo à porta da galeria.

“Na sua última mensagem...”, Virgínia começou a dizer, “Você disse que queria conversar.”

A expressão no rosto de Amélia era de confusão, mas era uma confusão dissimulada.

“Não se faça de sonsa.”, Virgínia continuou, “Eu sei que você lembra.”

“Eu tô sóbria demais pra isso”, Amélia murmurou, e começou a andar na direção do bar do outro lado da rua.

Gin e uísque servidos, Virgínia esperou. As palavras da outra vieram depois da segunda dose: “O sexo era ruim?”, ela perguntou.

Virgínia bebeu um gole de seu uísque. “Não”, respondeu.

“Então por quê?”

Ela pensou. Queria que tivesse uma razão, um motivo escondido no fundo de sua mente, algo que pudesse ser mais satisfatório do que o que estava prestes a dizer. “Não sei”, pausou, dando outro gole, “Eu parei de te amar em algum momento.”

“É porque eu fumo?”, Amélia fez um gesto para o barman preparar outra dose de gin para ela e virou o rosto na direção de Virgínia, que não sustentou o contato.

“Eu também fumo”, respondeu.

“É porque eu sou irresponsável?”, ela bebeu o gin em dois goles, os nós dos dedos brancos em torno do copo.

Virgínia riu. “Você é irresponsável, sim, mas não foi por isso.”

“Se o sexo não era ruim e você também fuma, por que você terminou comigo?”, ela parecia mais magoada do que estava realmente. Gesticulava, injuriada.

Virgínia quis um cigarro.

Pediu outro uísque, “Por que você se importa ainda? E a Roberta?”

Amélia bufou. “Foi uma noite”, apertou os olhos, o rosto contorcido numa expressão de dúvida, “Não, três.”

“Três noites é quase um relacionamento sério pra você”, Virgínia comentou num riso, e bebeu o uísque, “Como tá seu emprego?”, tentou a pergunta, querendo sair do assunto.

A outra fez uma careta. “Bem. Meu chefe é um merda”,disse, “Mas, Gina, você era incrível”.

Virgínia apertou o copo entre os dedos. “Na cama?”

“Em todo lugar.”

Ela quis rir de novo. A concepção de pessoa incrível de Amélia não era boa. Suspirou então: “Eu não quero estar com alguém só por sexo, Amélia. E você sabe que a gente não servia pra nada do resto.”

“Desde quando o resto importa?”

“Pra mim, importa.”

Amélia riu, um gesto escandaloso e embriagado. “Como se você fosse muito romântica.”

Virgínia ignorou o comentário. “Somos melhores separadas”, foi o que respondeu.

O silêncio pairou entre elas depois disso, e Amélia perguntou como ia o mestrado de Virgínia. Ela respondeu que ia bem, mas não fez nenhum comentário mais profundo. Não estava desconfortável ali, mas sentia que faltava algo dentro de si.

Saíram do bar depois de alguns outros drinques. Um táxi buzinou e freou bruscamente enquanto atravessavam a rua. A última coisa daquela noite que Virgínia se lembrava era o alarme do carro de Amélia a ser desligado.

Ela tropeçou na garrafa de vodca pela metade quando levantou da cama na manhã seguinte. Amélia ainda dormia, esparramada na cama sob um lençol que não cobria sua nudez direito.

Não era a primeira vez que aquilo acontecia desde o término.

Virgínia foi em direção à cozinha. Sobre a mesa estava um cartão-postal com a pintura de van Gogh que estava marcada em suas retinas. Natureza morta de um vaso com cinco girassóis. Endereçada de Virgínia a Amélia, ano 2015. Era o cartão que enviou a ela durante um semestre fora do país, antes dos cinco anos de namoro. “Sou melhor quando estou com você”, ele dizia.