Satanás

Classificação indicativa: Livre
Escrito em 2021.
Poema.


Como Hefesto, ele foi jogado de lá por seu pai.

Como os Titãs, ele caiu por nove dias.

Foi feito cobra. Inimigo.

A luz era diferente ali. Queimava. Queimava-o por fora como a fúria o queimava por dentro.

As asas pesavam em suas costas.

O Paraíso perdido pesava em seus olhos.

Mas Deus não o tinha feito.

Não do mesmo jeito que fez os outros. Porque ele tinha vontade própria. Porque ele tinha audácia que os outros serafins não tinham.

Ele, pois, tinha criado a si próprio.

Como Deus podia culpá-lo por isso?


Ele tentou voltar.

Subiu no rochedo mais alto e tentou alçar voo.

Ficaria de joelhos. No Céu, ficaria de joelhos se isso fosse necessário para ser aceito de volta.

Mas ele caía. De novo, ele caía.

E como tudo em seu corpo, seus joelhos doíam ao contato do chão.


O sangue que escorria das asas arrancadas era quente e escuro.

Ele via cada uma das penas no chão. Manchadas, envelhecidas.

Não tinha uso para elas. Não tinha uso para as lágrimas. Não tinha uso para si próprio.

A terra parecia firme, mas ele ainda estava em queda.


Seu lugar era ali.

Abaixo do Céu, abaixo da terra. Abaixo dos anjos, abaixo dos homens.

Tinha trocado as asas por presas. De serpente, como deveria ser.

No fogo, ele se forjou: novo, outro.

Fez-se Satanás, enfim.