Tolice

Classificação indicativa: Livre
Escrito em 2019.

Sinopse:

Robert tinha planos para sua vida com John. Eles não deram certo.


O plano era simples: Robert passaria o recesso de fim de ano no dormitório da faculdade, onde se encontraria com John, e eles passariam os feriados juntos. Robert tinha desistido da viagem de Nova Iorque a São Diego para ver sua família, o que definitivamente não era o mesmo que aconteceu com John: ele morava em Nova Iorque fazia alguns anos, depois de se mudar de São Diego com o pai, e podia passar o recesso no conforto da própria casa. Eles se conheciam desde antes da faculdade, e seu relacionamento sempre foi um misto de platônico com romântico. Robert tinha um segundo plano, secreto, para aqueles dias: falar para John o que sentia por ele. A probabilidade de isso dar certo e acabar num relacionamento romântico era alta – e Robert deveria saber, porque cursava Matemática.

Tinha tudo para dar certo.

E daria certo se eles não tivessem brigado três noites antes do início do recesso. Agora Robert estava sozinho no dormitório, e se sentia a única pessoa no campus inteiro além do guarda.

Ele limpou a condensação no vidro da janela e observou a neve cair do outro lado. O computador em sua cama tocava uma playlist de músicas natalinas, covers em versão rock, que, embora agitadas, não tinham poder nenhum sobre ele. A intenção de Robert com as músicas não era se sentir mais animado, era apenas disfarçar o silêncio que subia dentro do quarto e nos corredores. Talvez fingir que não estava tão só.

Lá embaixo, em frente ao prédio dos dormitórios, o carro do guarda acendeu os faróis. Robert abriu o vidro e acenou para ele, indicando que estava tudo bem. Então o carro se afastou, e Robert sentou na cama outra vez. Uma versão de Last Christmas tocava no computador. Ele pegou o livro que estava lendo e a caneta que usava para rabiscar as palavras nas páginas. A ideia era montar poemas com as palavras que não rabiscava, mas até agora ele tinha conseguido apenas um verso: “O coração que ama é tolo”. Robert não tinha escolhido Escrita Criativa como curso por alguma razão.

Afastou o computador depois de pausar a playlist, então fez o mesmo com o livro e a caneta. Levantou-se da cama, calçou os chinelos e pegou o pijama, que estava sobre uma cadeira. A porta do quarto fez eco no corredor escuro ao abrir. Ele andou em direção aos banheiros e entrou.

A água não estava tão quente quanto ele queria, mas, por outro lado, era bom tomar banho sozinho. Ele demorou o quanto pôde, até seus dedos enrugarem, até o vapor começar a incomodar. Não pensou em nada além do som da água. Quando saiu, sentia-se mais disposto.

Estava pronto para passar aquela noite sozinho.

Andou em direção ao quarto e a abriu. Quando acendeu a luz, seu coração pulou uma batida e os pés deram um passo para trás.

John estava sentado em sua cama.

Robert levou alguns segundos para se acalmar. Assim que conseguiu, ele entrou no quarto e fechou a porta. Sua vontade era de gritar com John e expulsá-lo dali a pontapés.

“Por que não avisou que vinha?”, Robert perguntou, a cara fechada e os braços cruzados.

“Eu enviei pelo menos três mensagens.”, John disse, sem se mover, “Mas você não visualizou nenhuma delas.”, e estendeu a mão na direção do outro, entregando-lhe o celular. Robert encarou as mensagens enviadas, e notou que não tinha sequer visto seu celular naquele dia. Ele colocou o aparelho na mesa ao lado, mas não se moveu além disso.

O silêncio subiu pelo quarto durante os próximos segundos.

“Você ainda tá bravo?”, John perguntou.

Robert soltou um riso de desgosto. “O que você acha?”

“Mas a gente brigou por um motivo tão besta.”, o outro disse.

Robert jogou o peso do corpo na outra perna: “Humilhação pública é besta pra você?”

John desviou o olhar e não disse nada.

Robert tinha comentado com uma amizade a respeito do que sentia por John, e a pessoa, comentado com outra, e esta, durante um dos jogos da festa anterior ao recesso, tinha dito tudo para uma audiência grande, crítica e conservadora.

Robert tentou sair dali antes que as pessoas começassem a persegui-lo com forcados, mas era tarde quando John se aproximou dele e pediu satisfações. Robert não compreendeu de início porque ele fez aquilo, até entender que John fazia parte da audiência crítica e conservadora.

John fez um longo discurso sobre como sua reputação cairia depois daquilo. Disse que não poderia mais ser assistente do professor que queria, que não conseguiria uma namorada tão cedo depois daquela noite, porque todo mundo pensaria que ele também era bicha, já que era tão próximo de Robert. Em uma conclusão que fez Robert querer rir, ele disse que todo seu futuro estava arruinado, como se ele precisasse escrever num currículo que foi objeto da afeição de um calouro.

Robert não se lembra muito do que disse em resposta. Em algum momento as palavras “vá para o Inferno” saíram de sua boca, e no instante seguinte, ele se viu num ponto de ônibus. Não estava chorando, o que era algo bom, mas sentia tanta raiva que era capaz de começar uma briga com um poste.

“Eu exagerei.”, John disse então, “Eu não deveria ter dito metade das coisas que eu disse.”

“Só metade?”, os braços de Robert ainda estavam cruzados.

John suspirou. “Eu tô tentando pedir desculpas.”

“E eu não quero te perdoar.”, Robert disse, sem piscar.

Eles ficaram em silêncio por um tempo, então John se levantou. “Acho melhor eu ir embora, então.”

Robert se afastou da porta e John a abriu. “Só para você saber–“, ele começou a falar, “Eu não... eu não sinto por você o que você sente por mim.”

“Engraçado que alguns anos atrás não era isso que você me dizia.”, Robert disse como resposta, “Mas Deus me livre você ser bicha agora, né?”

“Robert–”

A porta bateu.

Robert ouviu os passos de John até que ele chegasse às escadas. Depois de ter certeza de que ele tinha ido embora, ele se sentou na cama, pegou o livro e a caneta e voltou a escrever seu poema.

O coração que ama é tolo,

mas aquele que se esconde é mais.